Primeiramente devo desculpas a todos pela demora do relato da último pedal bate e volta que fizemos. Os motivos foram minha queda no pedal culminando com semanas extremamente complicadas no trabalho.
Bom, chega de lamurias e vamos aos fatos. Agitada a viagem com proposta do Fabiano para irmos para Piedade/SP saindo de Sorocaba/SP via estrada de terra, calma e tranquila. Começou com o fato de poucos poderiam ir ou queriam ir e no final marcamos eu, o Marcelo, o Nerso e o Fabiano.
O dia 21/03/2010 amanheceu com leve chuva e mesmo com uma noite nem tão boa de sono, acordei animado para pedalar. Logo cedinho, lá pelas 6h30 ou 7h00 o nosso guia Fabiano me liga dizendo que não ia mais conosco, pois tinha caido e aberto o pulso.
Conforme combinado, o Marcelo chegou em casa as 7h30 da manhã e com a chuva aproveitei ligar para o Nerso para saber se estava tudo nos conformes. Com a resposta positiva, saimos até o ponto de encontro (term. São Paulo) mesmo debaixo de chuva. Chegamos no terminal exatamente as 7h55 da manhã e lá esperamos. Esperamos. Cansamos. Esperamos e eis que depois que quase 1hora de atraso aparece o Nerso com mais doi pupilos (Trekker A e Trekker B).
Ele nos apresentou os Trekkers Juliano e Rui e sem mais delongas saimos pro pedal. Quando começamos a pedalar as nuvens começaram a desaparecer e parecia que íamos levar muito Sol na cabeça. Pela ciclovia chegamos até a entrada de Votorantim, atravessamos a cidade e nos deparamos com diversos motoristas imprudentes e desatenciosos. Como a cidade não é grande, logo estávamos na estrada que dá acesso ao trevo Piedade/Salto de Pirapora.
Dá-lhe ladeira para aquecer os músculos, ossos e o cérebro, mas dessa vez sem ciclofaixa especial, então andamos sempre em linha, pois alí dava a impressão que o nível da educação no trânsito tinha despencado. A sorte foi o horário e o baixo fluxo de motorizados. No meio da ladeira percebemos um tiozinho do outro lado da pista dando um “bode” e saindo todo torto falando sozinho, chapado. Os caras ficaram meio que dando risada do tiozinho e logo vim a descobrir que um dos trekkers havia chegado em casa as 5h da matina e mal tinha dormido pro pedal!! Bom, ele não foi o primeiro, né Adirso?
Logo chegamos ao ponto que imaginei que seria a entrada para a tal estrada minicipal, porém a dúvida bateu. Fizemos uma rápida reunião e decidimos ir até o botecão beira de estrada que havíamos passado no último pedal, para nos reabastecer e obter informações mais confiáveis. E assim fizemos, porém no caminho para o botecão beira de estrada vimos uma nítida entrada para uma estrada de terra, o Nerso foi até lá para conferir e ficamos com a quase certeza de que era a entrada para a estrada que estávamos procurando, mas como estávamos bem perto mesmo do botecão, insistimos nesse aumento de percurso pelas razões já ditas.
Ir até o botecão realmente não foi perda de tempo. Lá pudemos recarregar as caramanholas, comer alguma coisa, tomar uma água de côco e conversar com as pessoas que alí estavam. Todos preparados e reabastecidos, decidimos tentar a sorte vontado um pedaço da estrada pavimentada e tentando passar por uma cerca. Antes mesmo de chegar na cerca de arame enfarpado, desistimos, pois o mato estava bem alto, o chão íngreme e ao abrirmos caminho percebemos a presença de muuuuitos aracnídeos. Continuamos “voltando” pela estrada pavimentada já pensando em ir até a entrada oficial da estrada, porém poucos metros a frente enxergamos uma porteira.
A galera não pensou duas vezes e todos pararam alí mesmo para saber como era a melhor forma de passarmos para o lado de dentro da área fechada. Bem do lado da porteira, entre o início do arame enfarpado e a própria grade da porteira, havia um espaço suficiente para a passagem de uma bicicleta. Fomos passando um por um por, do outro lado da cerca, sem ressentimento algum de sermos transgressores da lei. Claramente tive de registrar o momento.
Essa via dentro dessa propriedade aparecentemente particular era bem legal, extremamente agradável. Agora parecia que começávamos a entrar mais em contato com a natureza e o pedal tinha tudo para ser magnífico. Logo de cara pegamos uma descidona cheia de valetas, qual eu e o Nerso descemos no maior pau, com a adrenalina na veia. Claro que depois de uma descida, sempre vem uma subida e então sebo nas canelas (ou no pedal). Mas não foi tão difícil, difícil foi a impressão que começávamos a andar em círculo.
No final desse trecho encontramos uma espécie de vila. Umas 5 ou 6 casas aninhadas em três fieliras. Decidimos passar sem falar nada, pensando na possíbilidade de alguém não gostar de nos vir alí. Na porta de uma das casas, havia um senhor parado e alguém decidiu (talvez eu) parar para conversar e perguntar qual o caminho para tal estrada Votorantim – Jurupará. O tiozinho estava tão bêbado, tão chapado, que ninguém entendeu nada do que ele disse e pior, deu uma vontade enorme de dar risada (lembrei do Toiço, que mesmo sem estar chapado, é difícil de compreender o que ele diz).
Não havia muito o que fazer, seguimos em frente, uma descida gostosa que atravessava uma estrada. Estranhei aquela estrada parei e tive a impressão que o nosso caminho seria por alí, mas o Nerso passou “voado” do meu lado, ladeira abaixo dizendo que o caminho era em frente e que ele tinha certeza, já que o fanho (tiozinho bêbado) tinha dito isso a ele. Eu (e talvez todos) muito desconfei e ao ver um outro tiozinho numa bicicleta, resolvi perguntar o caminho da estrada. Ele disse: “é aquela estrada que vocês acabaram de cruzar, ladeira acima”. Nem preciso dizer que todos ficaram puto com o Nerso, pois nos fez subir uns bons metros em ladreira bem íngreme.
Não tinha muito como reclamar, após a subidinha, pegamos a tão esperada estrada Votorantim-Jurupará e rumamos embora. A estrada tava tranquila, levemente íngreme, havia uma parede de terra enorme do nosso lado direito e do lado esquerdo várias árvores o que tornava o clima bem ameno. Mesmo assim, com a subida leve, porém longa, fez nos derramar muito suor. Mais para frente, a parede do lado direito foi “abaixando” (na verdade o terreno é que estava se elevando) e já ficava quase nivelado com a estrada e mais para frente ainda todo o matagal sumiu e começaram a aparecer campos de gado.
O barulho de água corrente era constante e um dos trekkers tentou ver se achava uma cachoeira ou algo do gênero. Ele achou, mas era uma trilhinha muito apertada e muitíssimo íngreme (daquelas que você deve descer sentado) e ninguém acho que valeria o esforço. Continuamos pedalando e começaram a aparecer algumas (duas) casas e muitos bois e vacas, qual o Nerso até tentou investir numa conversa, mas sem muito sucesso.
No final da subida (até que enfim) vimos um descampado com um açude (parecia um açude) com algumas pessoas pesacando, e uma casa logo mais acima. Como vencemos a longa subida, a para nos certificarmos que estávamos no caminho certo, decidimos bater na porta da casa e perguntar o caminho correto. A mulher lá de dentro estranhou um pouco, mas disse o que queríamos ouvir: a estrada era essa mesma e Jurupará ficava, segundo ela, à uns seis quilômetros dali. Quando voltamos para a estrada para chegar logo nesse tal de Jurupará, o Marcelo percebeu que seu pneu tinha furado. Trocamos a câmara e já que tínhamos parado, era a hora do segundo “brake” para um lanche.
Caboridratos para dentro do organismo, água para hidratar e pé na estrada! A empolgação tomou conta de mim e do Nerso e descemos as ladeiras “a millhão”, sem muito medo do que poderia acontecer. Claramente tínhamos que andar todos junto, já que somos um grupo e algumas vezes eu parei para esperar o resto da trupe. A paisagem estava muito bela e tinha árvores bem altas, fazendo com que o clima desse uma amenizada novamente. Depois de descer uma ladeirinha meio rápida (mas não tão rápido assim), comecei a conversar com um dos trekker, acho que o trekker A, ele me chamou de “retardado” e falou que tinha um cara que queria ir para o Nordeste de bicicleta. Eu achei legal e começamos a bater papo sobre o assunto. Nesse momento passa o Nerso muito rápido do meu lado e eu, sei lá porque cargas d’água, resolvi seguir a mesma cadência do doido. Foi aí que saímos para uma clareira, onde as árvores altas diminuíram e o chão mais seco (obviamente) juntamente com o início de outra ladeira. No meio da ladeira tinha um morrinho, pulamos juntos e quando voltei ao chão perdi totalmente o controle da bicicleta eu fui pro chão.
Só senti as pancadas e ví o mundo literamente girar, só esperando para parar e saber o resultado. Dor, muita dor na coxa direita, nos cotovelos e no dedo do pé direito. Fiquei alí parado uns minutos que pareceram uma eternidade, enquanto os outros vieram para ver o que tinha acontecido. Tentei levantar e a pressão baixou, voltei a sentar e respirar, jogar água na cabeça. O Nerso e alguém mais que não lembro tentava ver se a bicicleta tinha sofrido alguma avaria (claro sim) e tentavam consertá-la. Depois de uns minutos, tentei levantar novamente, mas novamente senti que ia desmaiar. Fique mais tempo sentado e o trekker B veio empurrar minha cabeça para baixo enquanto eu tentavaempurrá-la para cima, alegando que isso faria minha pressão normalizar. Conicidência ou não, funcionou.
Ainda atordoado, não sabia direito o que fazer, pois a minha perna direita doia muito e não sabia se teria condições de continuar o pedal. Após esperar mais um tempo, adotamos a estratégia de tentar pedalar por mais um pouco e iria fazendo auto avaliações durante o percurso para saber até que ponto eu conseguiria ir. Bem onde eu havia caído, havia paisagens belíssimas qual eu não sentia mais vontade de apreciar.
Fomos pedalando vagarosamente e a força exercidas pela perna direita me causava muita dor e isso abalava meu psicologico pois vinha constantemente a minha cabeça a idéia de eu ter quebrado a perna. Antes mesmo de chegar em Jurupará, os trekkers descobriram outra cachoeira, essa mais acessível e mais bela, porém da mesma forma, não senti vontade em apreciar ou mesmo entrar na água.
Eu não queria estragar o passeio da galera, mas minha decepção e tristeza era facilmente perceptível. Já no bairro de Jurupará, decidimos procurar uma farmácia ou uma venda que tivesse algum tipo de medicamento para os ralados dos ccotovelos e do joelho, mas foi em vão. Encontramos apenas uma vendinha qual pudemos comprar água e um algodão para tentar limpar os ferimentos. Após isso, com a cabeça um pouco mais no lugar, cheguei a conclusão de que não conseguiria voltar para Sorocaba e a solução foi ligar para a mãe da minha namorada que estava em uma chácara e combinar de me pegar lá (a história contada não foi bem essa, mas para não alarmamos ninguém resolvemos omitir o porquê da desistência do pedal completo), mas ainda tínhamos que pedalar até Piedade, pois ainda estávamos no meio do caminho para tal cidade.
Nem preciso dizer que o caminho foi angustiante, pelo menos para mim. Apesar das dores e do cansaço, eu ainda via animação na cara dos outros pedalantes, mas não conseguia, de jeito algum, esquecer minhas preocupações. De Jurupará até Piedade era só subida, eu estava desacreditando. Certa hora um dos trekkers se perguntou (em voz alta) se teríamos mais subida e, mesmo perbendo que ele não queria uma resposta necessariamente, eu afirmei que se subíssemos mais, chegaríamos no céu, mas queimei minha lingua ao perceber que ainda havia mais um derradeira subida.
O caminho para Piedade foi relativamente rápido. Na verdade foi lerdo pela quantidade de subidas, mas foi curto e as paisagens insistiam em nos chamar para uma parada para fotos, o que foi impossível de recusar mesmo querendo ir chegar logo ao encontro do meu socorro.
Depois de quase chegarmos no céu, chegamos finalmente a uma estradinha de asfalto muito íngreme. Como eu estava em péssimas condições físicas, psicológicas e sem o freio dianteiro, fui descendo muito lentamente, mesmo parecendo impossível. Em poucos segundos ví o Nerso fazendo uma curva muito rápida lá embaixo, há uns sei la, 500 metros na minha frente (imagino que ele deve ter atingido uns 50 ou 60 km/h). Chegando em Piedade, aportamos em uma padoca com as moças foram muito gentis e me forneceram gelo e depois jornal para forrar o carro de apoio.
A Albany chegou, colocamos a bicicleta no carro e fomos até chácara do Sandro e depois fui embora até Sorocaba para dar uma passadela no hospital. Enquanto isso, os capirabikers continuaram a aventura. Não posso dizer muito sobre o que aconteceu na viagem de volta, só sei que eles seguiram o planejamento inicial e voltaram pela estrada dos Garcias até a represa da light. De lá devem ter pegado aquela subida enorme e depois aquela descida monstruosa até Votorantim. Pelo centro de Votorantim chegaram em Sorocaba são e salvos, onde se espalharam, cada um para seu destino.
Nenhum corno estava com odômetro, então o percurso completo ficou uma incógnita. Eu arrisco a dizer que eles pedalaram em torno de 75 a 80 Km. Depois disso falei com o Marcelo e o Nerso e fiquei sabendo que eles chegaram uma 19h00 em Sorocaba. Eu passei no hospital e além dos hematomas, feridas na pele (ralados) e a dor insuportável na coxa, não era nada grave, nenhuma trinca ou quebra. Ainda faltam alguns exames para fazer sair, mas minha perna está quase 100%.
Depois fiquei refletindo sobre o que me aconteceu e eu só tenho de estar feliz por não ter acontecido nada de mais grave. As dores dos machucados serviram de lembrete para quando eu quiser achar que sou um “downhilheiro”, me por no meu lugar e voltar a pensar como um cicloturista. Como é de praxe, para finalizar gostaria de agradecer a todos que socorreram desse acidente e pedir desculpas aos pedalantes por ter, de certa forma, estragado com o passeio deles.
Mais fotos do pedal em:
http://rafaelcasale.multiply.com/photos/album/13/Trip_Sorocaba_-_Piedade_-_21032010#
O percurso no bikely:
http://www.bikely.com/maps/bike-path/Sorocaba-Piedade-estr-terra
Logo, logo estarei na ativamente novamente para encarar um próximo desafio!
Até a próxima.









