Caminho do Sol pero no mucho: Dia Um

Dia 1 – 03/06/2010
Santana de Parnaíba – Salto

Mesmo com a empolgação do primeiro dia de pedal pelo pseudo Caminho do Sol, foi complicado não odiar escutar o despertador tocar as 8h. Com muita dificuldade conseguimos realmente sair da cama lá pelas 9h15 para tomar o café da manhã.

Quando cheguei na sala onde é servido o café da pousada 1896 vi que ela estava vazia. Falei bom dia a todos que lá estavam e perguntei sobre o meu merecido e prometido desjejum. Um homem de cabelos e barba branca, que tagarelava por todo canto e fumava um cigarro dentro da sala, empurrou uma parte de tranqueira que estava na mesa e começou a colocar as coisas com uma mão só (já que a outra usava para segurar o maldito cigarro). Ele colocou as xícaras e talheres, serviu uma bandeija cheia de pão francês cortado verticalmente, além da margarina caseira qual fiz questão de experimentar e colocou uma “lingua de sogra” sobre um cômodo antigo do lado da mesa. Peguei uma xícara de café e comecei a me servir, já sabendo que não viram frios tampouco suco de fruta natural.

No final ainda arrisquei perguntar a possibilidade de ter uma fruta e a resposta foi que a fruta tinha acabado porque a pousada tinha recebido muitos hóspedes. Eu fiquei MUITO decepcionado com essa pousada e pra mim não existe justificativa de ter acabado por conta da quantidade hóspedes, pois até onde o cara tinha me falado, todos tinham reservado e todos pagaram o mesmo valor pela hospedagem, então se vira e compra mais!! Minha sugestão: não se hospeda nessa droga dessa pousada! NUNCA! Mesmo que pague pela credencial, se for dormir em Santana de Parnaíba, procure outra que vai acabar saindo mais barato e provalvemente terá um atendimento 10 vezes melhor.

Hall no interior da pousada 1896

Tomei meu café tentando não pensar na merda que fizemos ao ficar nessa pousada e tentando concentrar minhas energias em deixar minha bike perfeita para sairmos. Subi até o quarto, me troquei, arrumei minhas coisas, escovei os dentes e desci com tudo que era meu. Comecei a arrumar as coisas na bicicleta e quando tava quase tudo pronto percebo um problema no freio traseiro. Puxa, estica, solta isso e aquilo, nada funciona, até que depois de muito tempo perdido o problema era na manete do freio que tinha soltado do cabo de aço por causa da bolsa de guidão. Problema corrigido e todos a postos para iniciarmos o pedal, era hora então de partir.

Logo na saída, já quase pisamos em cima dos tapetes de cerragem feitos a mão por fiéis em comemoração ao dia de Corpus Christi. A cidade de Santana de Parnaíba estava em festa, com as ruas fechadas para carros, diversas pessoas andando pelas ruas aproveitando o feriado com sentido religioso ou somente por diversão.

Tapete em Santana de Parnaíba/SP

Mal saímos da pousada, dez metros rua abaixo e nos deparamos com uma padoca qual paramos sem sequer subir nas bicicletas. Era importante essa primeira parada para comprarmos água, isotônico e comida para o pedal, já que não sabíamos como seriam os próximos quilômetros. O Nerso aproveitou para tomar seu café da manhã, que revoltado com a pousada não quis nem sentar a mesa com o camaradas de pedal. Feito tudo isso, no momento em que íamos sair por definitivo chega uma penca de ciclistas de meia idade e começam a bater bapo.

Foi muito legal o bate papo. O pessoal vinha de sampa e o trajeto que fizeram foi pegar o trem até Barueri e de lá pedalar até Sanatana de Parnaíba, coisa que nós CapiraCapitarBikers podíamos ter feito. De qualquer forma, o pessoal foi pedalar até lá, simplesmente para conhecer e/ou visistar a cidade, pra mim o mais singelo Cicloturismo (intermodal além de tudo) e depois iam voltar do mesmo modo: bicicleta + trem. Tivemos que nos despedir, já que estávamos mais que atrasados e não dava pra compartilhar mais experiências.

Seguimos as setas amarelas indicadas ao longo do caminho e caimos na estrada dos Romeiros, sentido Pirapora do Bom Jesus. Esse primeiro trecho era recheado de subidas, descidas e belas vistas. Se não me falha a memória, depois de duas ingrimes subidas, veio a frustrante descida pois logo no começo dela já havia uma seta amarela indicando a entrada por um caminho de terra batida. Era uma subida forte, mas dava pra ir devagar e logo chegamos ao topo (mirante) da cidade de Pirapora do Bom Jesus.

In the Sky - Mirante de Pirapora do Om Jeseus

Esse mirante avançava um penhasco que quase se debruça pela cidade de Pirapora, mostrando um visual fenomenal. Fizemos uma parada rápida para fotos, vídeos e água, curtimos um pouco o ambiente com muito vento no rosto, mas nossa parada devia ser breve pois havíamos pedalado apenas 13 quilômetros.

Morro abaixo ainda em estrada de terra, continuamos a seguir as setas amarelas e agora do lado direito o morro terminva exibindo com graça o rio Tietê e a barreira construída provavelmente para geração de energia. Mais fotos, mas de forma rápida e já demos continuidade ao pedal que passou por um pequeno trecho em Single Track. Saindo desse trecho já caímos em estrada pavimentda novamente (ainda estrada dos Romeiros) mas logo paramos em um carrinho para tomar um Caldo de Cana.  Depois da garapa já estávamos no centro da cidade e que também estava toda enfeitada com tapetes especiais, onde obviamente também paramos para tirar algumas fotos.

Energia!!

O percurso dentro da cidade foi bem vagaroso, pois havia muito movimento de pessoas mesmo nas ruas e a atitude mais prudente foi descer da bicicleta e empurrá-la. Depois das fotos e água, resolvemos continuar a pedalar, pois o percurso ainda estava no começo. Continuamos a seguir as setas amarelas e retornamos a sair na estrada dos Romeiros, com muias subidas e descidas.

Pirapora do Bom Jesus

O trecho entre as cidades de Pirapora do Bom Jesus e Cabreúva foi talvez a mais bela do dia.  No começo pegamos muita subida, seguido de uma enorme descida (onde atingimos velocidade de mais de 60Km/h) e depois fomos serpenteando a terra as margens do rio Tietê, com uma mata. Esse trecho foi bem produtivo já que era estrada pavimentada com asfalto bom e baixo movimento de carros. Passamos por diversos ciclistas que pareciam fazer seu treino de feriado.

Paramos algumas vezes para reagrupar todo mundo (fiquei várias vezes para trás), para descansar e tomar água. Passamos também por dois peregrinos caminhantes, que aliás foram os únicos que vimos durante todo o percurso de três dias, coisa que me espantou já que imaginei que a quantidade seria muito maior.

A bela estrada dos Romeiros

Mais descidas e subidas, o que fez com que a fadiga começasse a aparecer. Havíamos pedalado pouco mais de 30 Km e ainda não havíamos chegado em Cabreúva e eu sentia que meu rítimo diminuira mais ainda. Após uma piramba relativamente grande, paramos no topo para apreciar a paisagem e aproveitar a dar mais um desncanso para as pernas e nesse momento começamos a pensar na estratégia para a chegada. No meu planejamento deveríamos pedalar quase 70 Km e fizemos todo o cálculo de velocidade média e horário de chegada em cima desse valor. Inoncetes…

Mais descida e mais subida e com uma reta no final chegamos a cidade de Cabreúva! Essa cidade também estava bem enfeitada com os tapetes especiais de Corpus Christis e mais uma vez paramos para comer. Chegamos em uma praça que parecia a praça “principal” da cidade, onde encontramos uma padaria bem legal. Lá tomei um refrigerante de cola (cafeína!!) e um salgado bem reforçado. O Nerso ficou vendo alguma coisa estranha na bicicleta dele, enquanto o Piola ficava fazendo um filminho besta, se recusando a comer alguma coisa. Ele ficou falando que toda vez que a gente parava, comíamos alguma coisa e chegamos no acordo que deveríamos apelidar o caminho de Caminho Gastronômico. Besteiras a parte, o Nerso chegou na padoca, arrematou metade do meu salgado e mandou mais dois isotônicos para dentro da sua mochila de hidratação e o Piola hipocritamente ia pro segundo salgado.

Todos alimentados (novamente) resolvemos sair logo, pois passava das 15h e isso começava a preocupar. Continuamos com a estratégia de seguir as setas amarelas, achando que isso era o mais certo e confiável a fazer e isso nos levou a uma estrada de terra e que por consequência uma paisagem mais bela do que apenas asfalto e concreto. Mas nem tudo são flores, pois o solo mais rugoso, subidas mais ingremes e infelizmente um percurso maior, nos fizeram sofrer. Pedalamos por um bom tempo praticamente sem parar sem saber se valeria a pena termos seguido o caminho por estrada pavimentada ou não. Já depois do quilômetro 60 passamos pelo Armazém do Limoeiro,  que ouvi dizer muito bem sobre e muito queríamos ter parado para ter pelo menos tomado uma pinguinha.

Cabreúva - itu/Salto - Paisagem para tirar o fôlego

Fácil imaginar que não paramos, pois o horário realmente nos preocupava, mas creio que foi um erro não termos pelo menos recarregado as caramanholas e ter obtido informação de quanto ainda faltaria para chegar a Salto. Na doidera, seguimos o belo caminho atrás de uma trupe de bikers que seguiam o caminho sem bagagem e com carro de apoio. Obviamente nem chegamos perto dos caras,  mas o importante foi que demos um adianto no trajeto que já fazia bastante calor há um bom tempo. Felizmente, depois do Armazém, passamos por um ponto de hidratação de alguma prova de aventura onde havia água filtrada disponível e pudemos recarregar as caramanholas. Logo depois do ponto de hidratação, veio uma longa descida, onde tirei várias fotos legais e fiquei para trás do grupo e na descida mais forte vi o Nerso e o Piola parados no meio, o que me fez imaginar que alguém tinha sofrido um acidente.

Fui chegando perto, continuei vendo os dois, mas não via a bicicleta do Nerso, imaginando que o doido tinha detonado com ela. Perguntei de forma angustiada o que tinha acontecido; Quem tinha caído. Os dois deram risada e o Nerso disse que ele havia caído. Como passei por algo parecido há pouco tempo fiquei meio apreensivo perguntando se estava tudo bem, se tinha se quebrado, se ralado, mas incrivelmente parecia tudo bem, quero dizer, quase tudo pois tinha batido o ombro que ficara dolorido por todo o pedal. Verificamos o ombro do cidadão que alegou ter condições físicas de continuar, depois verificamos a bicicleta e incrivelmente estava tudo em ordem! Depois de alguns minutos o próprio Nerso falou que podíamos seguir e voltamos a pedalar em rítimo mais lento.

O pedal continuou sempre em estrada de terra e nessa altura do campeonato não havia outra alternativa a não ser seguir as setas amarelas. O sol começava a baixar e a preocupação foi aumentando, com medo de não encontrarmos mais setas, ou sofrermos algum acidente mais sério por conta da falta de iluminação. Passamos pela fazenda Cana Verde, onde encontramos uma mulher andando pelas redondesas. Conversamos com ela e ela disse que também estava fazendo o Caminho do Sol, disse que se hospedou na referida fazenda e que iria fazer o percurso em quatro dias e nos indicou o caminho sem precisar ir até a fazenda. Ela ainda perguntou sobre cinco caras que ainda não tinham chegado, dissemos que vimos cinco bicigrinos parados no armazém do Limoeiro e seguimos nosso caminho.

O dia foi caindo e quando demos por nós estávamos pedalando praticamente na penumbra da noite. Parei, liguei o brake light e coloque na bolsa de guidão, ajudando muito pouco. Começamos a ver luzes ao longe porém não sabíamos se era Salto ou Itu, mas não tinha caminho a não ser continuar. Foi o que fizemos, passamos ao lado de uma estrada de ferro e mais adiante um trem e ainda tivemos tempo para zuar o Jupa, sem o mesmo estar presente. Passamos por baixo de um viaduto do trem, seguimos mais uns metros adiante e chegamos num cruzamento e não sabíamos o que fazer. Passou um carro e disse que o caminho da direita chegava em Salto porém havia uma ponte em construção (ou reforma), mas acreditamos que daria pra passar de bicicleta e resolvemos arriscar. Quando estávamos saindo vimos a seta amarela e sabíamos que estávamos no caminho certo.

Realmente a ponte em reforma só permitia passar pedestres, bicicletas e no máximo motos. Passamos mais ou menos numa boa, pois apesar da luz adianta, naquele ponto ainda estava bem escuro. Adentramos a cidade em clima de comemoração, já que o pior tinha passado. Pegamos informação sobre o hotel com alguns moradores locais e o Nerso nos guiou para um lado nada a ver da cidade. Rolou um pequeno estresse entre nós, mas resolvemos quando achamos um cidadão que sabia nos indicar mais ou menos a direção do hotel. Depois de cruzar a cidade de Salto, passado das 20h chegamos a posada Por do Sol de Salto, onde o camarada Bur já nos aguardava.

Achando o caminho para a pousada

Nos acomodamos, tomamos banho e pedimos pizza. A sra Gil e o sr. Paulo nos atenderam muitissimo bem e deixou nossa estadia muito agradável. Depois disso, ficamos no quarto dando uma zuada até nos preparamos para dormir o mais cedo possível, pois o segundo dia seria mais duro e a idéia era acordamos mais cedo para evitar de ter de pedalar a noite por caminhos desconhecidos novamente. O quarto era para quatro pessoas com um banheiro, TV e frigobar, por R$35,00 por pessoa com café da manhã. Bem melhor do que a pousada 1896.

Pousada Por do Sol

No final do primeiro dia, pedalamos 83 km, passando pelas cidades Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Cabreúva, Itu e Salto e o primeiro dia do Caminho do Sol acabou sem Sol.

Mais fotos em: http://rafaelcasale.multiply.com/photos/album/18/Pseudo_Caminho_do_Sol_-_03062010

Até amanhã.

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