Caminho do sol pero no mucho: Dia Dois

Dia 2 – 04/06/2010
Salto – Rio das Pedras

A noite passou rápida demais, com um pouco de frio, espirros, asma e até vozes noturnas sem sentido, o relógio despertou cedo (6h00) mas a dificuldade para acordar não foi tanta quanto do primeiro dia. O Bur fez o favor de despir o Nerso para que ele acordasse mais rápido e por consequência, nos acordar de maneira traumática.

De qualquer forma, lá pelas 6h30 já estávamos tomando nosso desjejum. Como já falado no post anteirior, a Pousada Por do Sol de Salto dava de 1000 a zero na pousada 1896, inclusive no café da manhã que tivemos direito a pão, queijo, presunto, margarina, suco de laranja, leite, café, fruta e bolo (talvez tenha esquecido de algo mais). Nos esbaldamos de comer e no final, após o Piola decidir destruir o banheiro, ficamos batendo um papo cabeça no salão onde é servido o café. Quando percebemos, tínhamos ficado lá mais de meia hora a mais. Então voltamos logo para o quarto, arrumamos todas as coisas e levamos para o saguão da pousada para colocar as bagagens nas bicicletas e partir.

Interior da Pousada Por do Sol de Salto

Nos despedimos do pessoal da pousada e saímos buscando novamente as setas amarelas. Paramos no primeiro posto de gasolina para dar uma limpada e lubrificada rápida nas bicicletas e depois fomos até o Carrefour de Salto para comprar água e mantimentos. Saimos do Carrefour, encontramos o caminho correto e seguimos embora. Antes mesmo de sair de Salto, demos de cara com a Fazenda Vesúvio, qual deveríamos parar, obter os devidos carimbos e transpassar pela fazenda seguindo o caminho, porém sabíamos que era inútil por não termos credencial. Conseguimos obter duas informações preciosas: uma que era possível pegar uma estrada contorna uma indústria que não me recordo o nome agora e outra que era possível contornar a fazenda, atravessar uma área de plantação de cana, passar por um grande tonel, depois passar por duas casas e sair pela portaria da frente dando de cara com uma seta amarela.

A segunda opção é a que escolhemos por parecer mais certa e mais perto. Saindo da fazenda Vesúvio pegamos a primeira entrada à esqurda em uma rua de terra, meio que paralelo a fazenda e mais adianta encontramos com dois motoristas de caminhão. Um deles conhecia muito bem a região e nos sugeriu seguir em frente até o fim da estrada e quando aparecesse uma bifuracação, não pegasse a direita e seguisse meio no caminho formado pela cana cortada. Fizemos extamente o que ele sugeriu, passamos por um objeto de madeira enorme, que lembrava um tonel, mas enorme e depois passamos na frente de duas casas (não sabíamos se estávamos em terras particulares ou não). Mais adiante nos deparamos com uma porteira de madeira que dava para outra estrada de terra, onde lá pudemos ver uma seta amarela! Conseguimos voltar ao ponto certo só conversando com as pessoas locais e arriscando um pouquinho; Foi muito legal.

Contornando a fazenda Vesúvio

De volta ao caminho

Ao passar pela porteira, eu estava com muita fome, abri o figo seco que eu levava e comemos quase tudo. Voltamos a cair na estrada terra já sentindo o cansaço do primeiro dia. Essa estrada tinha muita pedra e muita piramba, o que tornava um pedal mais forte e um pouco mais técnico. Seguimos pedalando e parando de vez enquando para tomar uma água, até determinado ponto vi uma plantação de cana que considerei madura (achismo puro), onde parei, atravessei a cerca e peguei uma para tomar. Todos pararam e de repente aparece um cachorro meio que percebendo toda a movimentação na frente da fazenda. Ficamos ali comendo cana e bricando com o cachoro que tava mais interessado em comida do que qualquer outra coisa.

Cão chupando cana - foto Carnaúba

Porém tínhamos que seguir em frente, pois queríamos chegar em Elias Fausto rápido para não termos de pedalar novamente no escuro. O calor começa a pegar um pouco e continuamos a pedalar “forte” em meio as pedras e subidas que tínhamos pelo caminho. O Piola o Bur andavam sempre na frente, deixando eu e o Nerso para trás. E foi subida, foi descida, paradas para fotos e mais subidas e descidas com muitas pedrinhas que atrapalhavam muito o desenvolver da velocidade, até quase acabar nossa água. Depois de mais de 35 Km e mais de duas horas de pedal, chegamos em Elias Fausto.

Já beirava as 13 horas e decidimos almoçar na cidade. Entre a procura/decisão de qual restaurante ir, encontramos alguns bikers que pareciam também fazer o caminho do Sol, mas não rolou integração já que pareciam que eles nos olhavam com desdém, mas pode ser só impressão. Eles tinham bike boas, provavelmente melhor que as nossas, não levavam as mochilas nos bagageiros (aliás, nem tinham bagageiros) e tinham carro de apoio com bike reserva e tudo; Coisa chique!

Depois que eu quase perdi minha carteira com dinheiro e cartão de crédito, decidimos ir no restaurante que o Nerso tanto queria ir, pois ele não tava afim de PF (prato feito). Exigências atendidas, entramos no restaurante com bicicleta e tudo a conselho de um funcionário do próprio restaurante e lá apreciamos um buffet de salada, guarnição e carnes. Todos comeram muito bem, mas o Piola exagerou, ao repetir umas duas vezes e tomar uma cerveja. Depois de terminar o almoço já estava arrependido, pois tinha comido mais que o necessário e o cansaço e a fadiga vieram forte. Decidimos que sairíamos as 14h.

Saímos do restaurante para tomar um café, comprar água para repor as caramanholas, o embaçado do Nerso foi comprar isotônio, passar protetor solar e finalmente sair, as 14h20. Logo encontramos as setas amarelas e logo estávamos em estrada de terra novamente. A estrada parecia ter menos pedras, porém diversos trechos tinha uma terra bem fofa o que também atrapalhava um pouco.

Estrada para Capivari

Não me recordava exatamente, mas tinha a impressão que distância entre Elias Fausto e Capivari era maior do que Elias Fausto – Salto. De qualquer forma, continuamos pedalando por estrada de terra com paisagens realmente belas. Passamos por algo que parecia um condomínio ou hotel Fazenda que somente eu percebi (os outros passaram pedalando que nem louco e nem pararam) e depois um casarão abandonado. Eu e o Nerso ainda discutíamos o caminho mais curto e falava com apoio do Bur que seria impossível pedalar pela rod. do Açúcar, enquanto o Piola só falava em seguir as malditas setas amarelas. Eu lembrava bem no mapa que fiz, que em determinado ponto teríamos que cruzar tal rodovia e quando isso aconteceu, o Nerso olhou e concordou que seria realmente complicado pedalarmos por lá.

Do outro lado da estrada havia somente cana de açúcar e tava muito alta e que talvez essa sim fosse boa para que pudéssemos colher e comer, mas tínhamos acabado de almoçar e comida era a última coisa que eu pensaria naquele momento. Pedalar no meio do canavial foi muito legal e deu um ânimo a mais, principalmente porque a comida já tinha baixado um pouco além de quê, a cidade de Capivaria já se encontrava no nosso campo de visão.

"A colheita maldita"

Sangue nos zóio - pedal animado no canavial

Após cruzarmos por máquinas e trabalhadores cortando cana, avistamos Capivari, ficamos animados, posamos para fotos e batemos uma papo rápido com o pessoal que tinha um dia mais difícil que o nosso. Animados, continuamos a seguri as setas amarelas crendo estarmos a pouquíssimos quilômetros de chegar no centro de Capivari. Não sei exatamete o que aconteceu, só sei que as setas sempre nos indicava sentido Oeste do qual cremos precisar passar e de repente não víamos mais a cidade e tínhamos a constante sensação de andarmos em círculos. Passamos por um ponto de descanso criado pelo pessoal do Caminho do Sol e para mim o caminho já não estava fazendo muito mais sentido, ou meu senso de direção tinha ido pro espaço. Claramente não foi de todo o pior, já que passamos por outros pontos belos e dígnos de fotos, mas foi estranho.

Passamos por uma placa que dizia “Parabéns peregrinos. Este é o meio do caminho…” e ao ler a placa eu fiquei com muita vontade de chutá-la, pois para mim AINDA era o meio do caminho. Bom, após subidas, descidas, cana de açúcar e voltas em círculo, chegamos em um trecho que margiamos algo como um lago e mais na frente nos deparamos com uma represa d’água mas não chegamos a descobrir sua real função. Depois de paradas para fotos, descobrimos que estávamos na fazenda Milhã qual a cruzamos sem parar e conversando com um rapaz a cavalo, descobrimos que finalmente estávamos a 6km de Capiravi.

Sem perder tempo chegamos em Capivari já preocupados com o horário, pois passava das 16h. Paramos em um supermercado, compramos um galão de 5 litros de água, nos reabastecemos, pegamos algumas instruções com o pessoal local e rumamos para a saída. A cidade de Capivari não é uma cidade pequeninha e por algum motivo estava bem agitada e com as ruas lotadas de carros (argh). Pegamos logo a saída para Mombuca numa enorme piramba, o que não foi tão ruim por ser pavimentada. Mais pra frente encontramos uma seta amarela indicando um caminho não pavimentado por meio de fazendas e canaviais. A decisão de parar de seguir as setas amarelas foi unânime e fomos pedalando forte.

Piramba em Capivari

Para variar o Piola e o Bur ficaram bem na frente e eu e o Nerso fomos tentando andar no mesmo rítimo. Parei para pegar meus óculos transparentes e aproveitei para ligar o brake ligth e depois disso passamos a pedalar de forma mais ritimada. Passei meu brake ligth para o Nerso para que ele ficasse atrás e eu fosse cortando o vento para que pedalássemos em rítimo mais forte. Estava bem preocupado com o horário. Passamos pela Marcelo e Bur sem parar e seguimos sempre eu na frente fazendo vácuo para o Nerso. Depois de uns 10 ou 15 minutos, ainda com o céu claro (já sem Sol), chegamos em Mombuca.

Paramos um pouco e esperamos pela dupla que vinha logo atrás. O Nerso falou que o rítimo tava forte e que daquele ponto até Rio das Pedras o rítimo teria de diminuir. Falei que iríamos pedalar novamente no escuro, para ligarmos os brake ligths e pedalarmos sempre juntos. A visão ainda estava boa, mas já com sinais nítidos de penumbra. Menos de vinte minutos de pedal depois já estava quase como um breu, pouco podíamos enxergar, mas nesse ponto não podíamos fazer mais nada além de pedalar com cautela na rodovia sem acostamento e chamar o máximo de atenção possível dos motoristas O Nerso sacou uns adesivos reflexivos e colocou no bagageiro do Piola que estava sem luz traseira.

Foi um trecho muito insano, apensar do pouco movimento de carros, toda vez que vinha um, era um aperto. Mesmo com luz traseira, tirei vesti minha jaqueta laranja (chamativa) com impressões reflexivas e andei atrás do pelotão por ser o mais “visível” entre todos. A capa da Curtlo do meu bike tour (bolsa de guidão) também é feito de tinta reflexiva, então tirei e vesti na própria bolsa, para chamar atenção dos carros que vinham na direção oposta. Pedalar totalmente no escuro não foi a pior parte, pois o corpo se adapta a escuridão, a retina dilata e você consegue enxergar muita coisa (principamente com a visão periférica). O problema é quando vinham carros/caminhões na direção oposta (que representavam pouco perigo) mas a luz nos fazia ficar praticamente cegos por alguns segundos e dava muito medo de sair da pista e cair e/ou passar em algum buraco, perder o controle e cair.

Mesmo assim não tinha outra saída a não ser pedalar com o maior cuidado possível e chamar a maior atenção possível. Foram momentos de muita tensão. Não sei exatamente por quanto tempo pedalamos, tenho a impressão de ter pedalado de trinta a uma hora, mas é complicado precisar. Depois de passar muito medo, começamos a ver as luzes da cidade e voltamos a nos animar e em poucos minutos havíamos chegado na entrada principal da cidade.

uhuuuuu!!!

Fizemos a nossa parte em pedalar sem parar na escuridão e a adrenalina fez a parte dela em nos deixar muito loucos quando terminamos o que seria a parte mais “punk” de todo o pedal. Pilhados, com o resultado da adrenalina/endorfina no sangue, pedalamos mais tranquilos pela cidade de Rio das Pedras em busca do Hotel Silver. Aliás, atravessamos a cidade para chegar no Hotel que fica localizado perto da saída oposta qual entramos, sentido Piracicaba.

Chegamos no hotel e não fomos muito bem recebidos pelo senhor que tomava conta no dia. Eu havia feito a reserva por telefone e conversei com um outro senhor bem simpático e atencioso que infelizmente não estava nesse dia. Depois de uma treta com os quartos , qual o atendente alegava não ter a reserva de dois quartos que pedi (apenas 1 estava reservado) qual até o Nerso ficou puto comigo, fomos então guardar as bicicletas em um lugar meio estranho onde novamente ouvi críticas por ser um lugar que parecia ser pouco seguro. Queríamos colocar as bicicletas dentro de um quartinho que já estavam duas outras bicicletas, mas o senhor atendente alegava que não podia e que as bicicletas eram do dono do hotel. POrém uma hora ele cedeu, guardamos as bicicletas no maldito quartinho e fomos para o quarto onde primeiramente pedimos pizza e depois fomos as arrumações e banho.

O quarto era bem simples, mas não era um primor de organização e limpeza (bem diferente da Pousada Por do Sol de Salto). Felizmente não estava muito frio no dia e não foi necessário cobertor que parecia um trapo e devia estar entupido de pó e ácaros (que cobertor que não tem? Mas veja, esse estava péssimo).

E no final do segundo dia, desviando um pouco o caminho do sol (Rio das Pedras não faz parte da rota), pedalamos mais de 90 Km (cerca de 93) e novamente no finalzinho pedalamos no escuro, passando pelas cidades de Salto, Elias Fausto, Capivari, Mombuca e Rio das Pedras.

Até amanhã!

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